Viagem no tempo das coisas que vivo todo dia

9 de julho de 2019 in , , , by

Viagem no tempo das coisas que vivo todo dia

 

Mal absorvi as coisas que passei e cá estou eu de novo vivendo novamente nesse dia seis.

Um dia eu voltei no tempo. Não foi como os grandes filmes de ficção científica mostram. Não abriu-se um portal na minha sala de estar, ou bati a cabeça em um poste desavisado. Eu só estava bebendo um suco e voltei ao início do dia.

Não, eu não voltei ao passado distante, a um momento histórico dos livros de História ou coisa que o pareça. Eu voltei ao início daquele mesmo dia.

 

E agora eu narro o que me aconteceu:

Às 6 horas levantei. Naquele dia trabalharia às dez e não morava tão longe do serviço. Eu sei quando são seis horas. O sol entra pela brecha da persiana assim, ainda tímido, sem avisar mas sem querer incomodar muito. “Com licença, só vim dar bom dia” é o que ele diria se fosse um velhinho simpático a passar pela minha janela.

Não tomei uma xícara de café. Não tomo café ou como qualquer coisa antes das onze. Apenas fui direto ao banheiro e lavei o rosto com água fria. Olhei para o espelho: que cara amassada – pensei – e que olheiras são essas. Talvez devesse dormir mais cedo hoje, decidi meio sem confiar nessa minha sugestão. Eu sempre dormia só depois de ler mais um capítulo do livro da vez.

Era um dia normal de fevereiro e isso não mudou quando retornei a ele. Afinal de contas porque eu estava vivendo esse dia novamente? Penso que se eu tivesse voltado a uma época mais distante da minha vida, aí sim, iria conseguir vivenciá-la de outra forma. Mas hoje? Hoje de manhã? Mal absorvi as coisas que passei e cá estou eu de novo vivendo novamente nesse dia seis.

Pego as chaves em cima da mesa da televisão. Nenhum cachorro ou gato para me despedir. Nem plantas. A casa era mesmo um pouco sóbria de barulhos e chamegos. Pelos espalhados ou latidos na porta. Foi uma escolha. Ou a vida escolheu isso para mim. De qualquer forma não tinha tempo. Abri a porta, calcei as sapatilhas azuis que ficam sempre na entrada e fui. O próximo metrô sairia logo mais.

 

- Bom dia dona Joana!, cumprimenta o porteiro sempre risonho.
- Bom dia seu Paulo, respondo sem o mesmo ânimo mas balançando a cabeça como quem diz sim a alguém.

Aperto o 10º andar. Departamento de finanças, aí vou eu. Dividia a sala com mais três pessoas. Todas sempre silenciosas e absortas em seus trabalhos – ou pensamentos. Não sei bem. Fazia tempo que não me incomodava em não interagir. O essencial era o necessário. Só respondia mesmo ao meu chefe, que não era também tão presente. Ele e seus cabelos por faltar.

De repente me lembro que já estive nesse dia. Se já o vivi, precisaria eu trabalhar novamente? Abri minha caixa de e-mails. Sim, precisaria trabalhar. Todas as solicitações ainda estavam lá, sem a marcação de lida. Que ótimo!, pensei. Estou presa em um looping de tédio.

 

É engraçado como a rotina cai sobre nós como um lençol velho, já fino pelo uso

Não sei bem como o tédio se estabeleceu sob meus dias, mas ele gostou de me acompanhar. No início, Bete, minha melhor amiga desde os 15, mudou-se de estado. Não fazíamos nada demais juntas, aliás. Mas os nossos “não fazer” juntas tinham significado para mim. Depois precisei aceitar que a minha promoção no escritório não iria acontecer. Poderia mudar de emprego, mas não o fiz. E cá estou.

Meio dia e quinze. Fui almoçar no restaurante a quilo da esquina. O peso da comida lá custa dois e noventa e nove. Almoço com gosto caseiro. A garçonete já sabia qual bebida eu pediria. – Suco de uva na mesa sete!, gritou para o outro garçom. Comi a mesma coisa que no outro dia, o mesmo dia só que da primeira vez.

Lá pras dezoito e trinta resolvi pegar minha bolsa para sair. Meu horário era até as dezenove, mas tinha muitas horas extras guardadas por aí. Dei tchau ao pessoal do departamento e fui pegar o metrô. Dez minutos de caminhada até lá. Vagão cheio, sempre.

Cheguei em casa. Antes de entrar, pus minhas sapatilhas azuis na entrada, perto do tapete de limpar os pés. Bolsa no sofá, casaco no sofá. Tirei a roupa preguiçosamente – não por estar exatamente cansada, mas ao final do dia sempre batia um desânimo que mais parecia dor de exercício de academia. Tomei banho morno, calcei meus chinelos com meia. Liguei a tv.

Lembrei que precisava descongelar o freezer para comprar frango – não tinha mais espaço para nada, apenas gelo. Abri a geladeira e peguei uma caixa de leite pela metade. Estava na validade. Misturei com achocolatado. Bebi. Não era o mesmo dia – me dei conta. Não voltei no tempo. Bebi leite, não suco. Como assim?

É engraçado como a rotina cai sobre nós como um lençol velho, já fino pelo uso. Leve, sem fazer tanto peso ou alarde. E lá estava eu, coberta pela camada do dia a dia. Sem perceber, levada pelos passos do tédio genioso. Teimoso, não se vai tão fácil. Discreto, para permanecer. Guardei o leite na geladeira. Acho que amanhã irei comprar um vasinho de cacto, talvez – pensei.

 

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