Um mês fora de casa, um mês dentro de mim

Um mês fora de casa, um mês dentro de mim

Em dezembro de 2018 passei exatamente um mês fora. Viajei para dois lugares dentro do estado do Rio de Janeiro e, nos intervalos entre uma viagem e outra, fiquei na casa da minha mãe, que pode ser considerada uma terceira viagem, já que também não fica na capital, onde moro. Um mês inteirinho fora.

Para quem não sabe, trabalho de forma remota, ou seja, não em um local fixo, o que me permitiria passar a existência viajando, desde que os locais possuíssem energia elétrica e wi-fi. Mas, ao contrário disso – não exatamente por uma escolha minha – eu trabalho a maior parte dos dias em casa mesmo (a não ser quando estou na casa do Rapha, meu namorado). Basicamente eu moro e trabalho no mesmo local. Então, enquanto um grande número de pessoas está saindo para trabalhar em seus carros, transportes públicos ou a pé, eu estou preparando meu chá preto de pijama ainda. Entendam, não estou me gabando disso, porque, como tudo nessa vida, existem prós e contras em optar por essa forma de trabalho.

Eu sou caseira, ou pelo menos me condicionei a ser. Adoro preparar meu almoço, arrumar as coisas, comprar algo para meu apê, que divido com um dos meus irmãos, Edson. Adoro sentar no sofá e ver algo na tv ou ler qualquer livro, despretensiosamente, comendo biscoito (ou frutas, frutaaaas, preciso comer melhor). Mas, como trabalho e moro no mesmo lugar, isso acaba por virar uma zona absolutamente gostosa, quentinha e segura de conforto que, muitas vezes, eu não quero nem pensar em largar. Vocês são assim com a casa de vocês também?

Mas aí passei um mês longe do meu lugar mágico. E foi mágico, claro. Viajei com Rapha para a cidade que irmã dele mora, onde tudo começou, onde a família dele começou. Foi tão profundo isso pra mim. Me conectar com tudo que trouxe ele até aqui e até mim. Fui grata pela hospedagem gostosa da minha cunhada, seu marido e dos seus dois filhos, que eu sou apaixonada. Pela paisagem linda e simples, que me remeteu a uma inspiração imediata para escrever. Depois passamos o ano novo em outro local lindo, com sua família e foi divertido, diferente e trouxe umas reflexões importantes para mim. Estava presa em uma crise alérgica havia uns três meses e ela simplesmente não me largava de jeito nenhum. Isso estava me cansando, tirando minha energia e, finalmente, minha autoestima. E quando nossa autoestima cai, vem as comparações e sensação de sermos um perfeito zerinho à esquerda. Depois dessa viagem percebi que estava precisando acreditar mais em mim e no que eu representava para quem me ama. E isso me fortaleceu. Os intervalos na casa da minha mãe, nem preciso falar. Comidas colhidas do quintal, três cachorros que amo, meu “paidrasto” adorando comer meu feijão, uma mãe incrível e que eu fico pensando como seria um mundo sem ela, que baita sorte o mundo tem!

Foi mágico, mas quase todos os dias eu pensava que a minha casa estava precisando de mim, pensava em como as roupas do meu irmão seriam lavadas, em como estava querendo usar as roupas que não estavam na minha mala. Muitas vezes me culpei e achei que estava envolvida demais com a rotina das outras pessoas e zero com a minha. E, é claro que voltar para casa ajuda muito a reconstruir rotinas e que precisamos sim ter e estar no nosso cantinho, mas se culpar por isso? Percebi que algo não estava bem comigo em relação a esse relacionamento meio pegajoso com meu lar. A casa não “precisava” de mim, ela é um amontoado de materiais de construção, não um cachorro. Meu cachorro Adalberto, que mora comigo, estava sendo bem cuidado pela minha mãe. Meu irmão me mandou mensagem perguntando como se lavava bermudas na máquina. Tudo, tudo mesmo estava conseguindo existir sem eu ter que estar dentro do meu apartamento.

Trabalhar de casa é maravilhoso, e eu penso muito pouco em mudar isso, mas tem suas desvantagens. Não há trocas físicas com pessoas da area, é só você, seu computador e clientes de toda parte te procurando por e-mail ou chamando no WhatsApp. Não há pausas para um café com algum colega ou horas de almoço engraçadas. Eu não tenho festas de Natal ou bolos de aniversário surpresa. Então, não dá para se gabar, apenas entender que é uma escolha válida, viável, mas que virá com perdas também. Ser sua própria chefe às vezes cansa, sabia?

Depois de um mês fora, percebi uma coisa muito legal: estar envolvida com a “minha energia” não depende de um local, mas da minha relação comigo e com as outras pessoas. Me lembro de uma vez, durante esse período, que meu namorado perguntou para todos o que queriam fazer à noite. Não foi uma pergunta direcionada exatamente para mim, e esperei todo mundo se manifestar. Ninguém falou nada. Aí toquei no ombro dele e disse: “queria ir ao Mc Donalds. Queria não, eu quero!”. E fomos. E vivenciei minha vontade. E pensei um pouco em mim em meio ao grupo. E foi ótimo! Ser você não é um lugar, é uma atitude interna constante.

Estou escrevendo esse texto da mesa da minha sala, onde fica meu home office. E é ótimo poder fazer isso da minha sala. Mais cedo fiz almoço, acabou o gás no meio do cozimento do feijão, mas demos um jeito. Mais tarde minha mãe e meu padrasto vêm aqui trazer nosso cachorro de volta. Arrumei a caminha dele com lençol novo (sim ele tem um pequeno enxoval). Mais tarde vou assistir à novela das seis que amo. Coisas gostosas de se vivenciar quando podemos trabalhar de casa. Mas agora sei que a minha casa é meu refúgio bom, a qual sou profundamente grata a mim, ao meu irmão e ao Universo por termos condição de estarmos aqui. Mas está tudo bem passar algum mês fora. Está tudo bem passar finais de semana ao lado do Rapha. Está tudo bem eu vivenciar o mundo. Afinal, como já li em algum lugar, “nós somos o nosso lar”.

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  1. Me sinto privilegiada ao ler esse texto. Parece que estou ouvindo um áudio seu. Me sinto mais privilegiado ainda por ter participado desse mês de alguma forma. Você não é nem um lar, é uma mansão com plantação de girassol, horta e um canil. Você é foda demais! E eu amo a mulher que você é até quando está cansada de ser por algum motivo que a vida dá. Obrigada por ser minha inspiração e ser essa amiga presente e maravilhosa!