Ser mulher: um ato político

Ser mulher: um ato político

Ser mulher é, em si, um ato político. Andar nas ruas para uma mulher não é apenas andar nas ruas, mas correr perigo real de sofrer violência. Dentro de várias casas brasileiras – e pelo mundo -, um local onde deveria ser o lar doce lar torna-se palco para abusos, estupros, violência psicológica, verbal e física. No mercado de trabalho, ganhamos menos que os homens (em relação aos mesmos cargos) e estamos em posição inferior em número de mulheres em cargos altos nas empresas. Conseguimos o direito ao voto, no Brasil, apenas em 1934.

Nossos corpos nus são aceitos apenas para entretenimento masculino, mas quando decidimos usar blusa sem sutiã, é um alvoroço seguido de ultraje. Roupas parecem falar por nós, convidando homens de toda parte a nos assediar com as famosas “cantadas” – que é um tipo de assédio aceito socialmente – e com atos que vão até o estupro em si.

Mães precisam se desdobrar em mil para dar conta de seus lares e empregos, sendo “parabenizadas” por conseguirem ser “super mulheres”, parabenizadas por terem que dar conta de obrigações que deveriam ser compartilhadas entre o casal, ou entre o pai e mãe (no caso de mães solo). O destino dos nossos corpos e maternidade seguem nas mãos de legisladores em sua maioria homens. Todos parecem ter direitos sobre nós, menos nós mesmas.

Brasil, um dos países que mais mata mulheres – por serem mulheres – no mundo. Até quando as notícias sobre feminicídio irão ser manchetes nos jornais? Até quando nós, vítimas, seremos culpabilizadas por um ato que é inteiro de responsabilidade do agressor?

Até quando iremos receber “Feliz Dia da Mulher” com flores, chocolates e mimos? Nós queremos tudo isso, mas queremos lembrar que essa data não foi criada para isso. Em 1857 centenas de operárias morreram queimadas em uma fábrica têxtil em Nova York (EUA). Elas reivindicavam direitos trabalhistas justos. Anos depois foi instituído o Dia Internacional da Mulher. Dia Internacional PELOS DIREITOS da mulher teria sido um título mais correto, na minha opinião.

Ser mulher é, em si, um ato político, e iremos todas seguir juntas lutando pelos nossos direitos de equidade, segurança, liberdade, respeito e existência justa. Que um dia, como uma amiga me falou, esse dia possa, enfim, ser feliz.

Um agradecimento especial a todas as mulheres da história que tiveram a coragem de colocar tudo em jogo para garantir um futuro melhor para todas nós, assim como a mim e a você, que diante dos pequenos atos diários de desconstrução dos que estão a nossa volta e pelo respeito que temos a nós mesmas, criamos, a cada dia, um mundo um pouco mais justo para o existir feminino. Aqui, alguns nomes, representando todos os outros do mundo: Minha mãe Marmaya Nóbrega, que mesmo vinda de uma década onde o machismo gritava mais que hoje, soube me criar com o senso de que eu mereço existir no mundo. A minha avó, Márcia Maia, que dentro das brechas que a vida dava, conseguiu pintar quadros, conquistar amizades aos montes e ser lembrada até hoje como uma artista forte de coração justo. A minha bisavó Anita Maia, que após ver seu marido ser morto em uma explosão, liderou por muitos anos o posto de gasolina da família e criou seus filhos sozinha, dando origem à linhagem de mulheres maravilhosas, as Maias. As minhas amigas Suélen Emerick, Larissa Pandori, Mariane Schiming e Gabriela Piva (dentre outras), que são fontes diárias de suporte e inspiração feminina e feminista. À Malala, Madre Teresa de Calcutá, Billie Jean King, Marielle Franco, Maria da Penha, Maria Firmina dos Reis, Nísia Floresta, Pagu e tantas outras mais. Obrigada!

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